Eu era miúda quando começou esta ideia pouco sensata de que o país tinha margem para viver só de serviços. Aproveitou-se uma onda de histeria generalizada de que o futuro passava somente por um emprego de sapatos, longe das botas e das galochas e de um título a preceder o nome no multibanco. Pensou-se e difundiu-se a ideia de que a terra do país estava cansada, culpou-se o tempo e o calor, inventaram-se cooperativas e venderam-se hectares a quem neles manteve a tradição de cultivo embora sob batuta de língua diferente, quebraram-se dorsos dos homens que desde há gerações levavam a enxada à terra e com isso proviam as suas famílias e chamou-se ao litoral as pessoas do interior, apelou-se a uma vida facilitada que era altura de apanhar a fruta do frigorífico sem estender as mãos à árvore. Eram tempos conturbados esses. Tempos em que só nos aceitávamos numa grandeza faraónica e em que a ideia de qualidade de vida passava por uma lareira bacoca de mármore enfiada num T4 de um prédio de muitos andares. Virou-se simplesmente costas à base inicial de qualquer sociedade, a sua alimentação. Não discuto que pudéssemos produzir tudo o que consumimos. Parece-me claro que não. Discuto, no entanto, esta carência de produtos importados que não faz mais que nos tornar clientes de países que tal e qual como no retalho têm a sua margem de lucro cabendo-nos a nós abrir a bolsa. Chega-se agora à brilhante conclusão que é preciso repovoar o interior do país, que afinal até precisamos de mais agricultura e que, pasme-se, temos produto de qualidade!!! Há até quem diga que se consegue fazer vida da cultura agrária, se calhar até bem mais abastada que a sobrevivência a partir de salários mínimos ou recibo-verdistas em que mergulhámos e a léguas dos rendimentos de inserção, parece que é coisa para correr bem ao ponto de, vejam lá, a comunidade europeia ter vindo a estimular mais esta vertente sobretudo nos países do sul da Europa já que a indústria está a fugir um bocadinho para leste. A minha pergunta é só uma, em que altura é que isto não era previsível? Quando é que alguma vez se pode pôr de parte a essência da sobrevivência humana? França não é Paris nem os restantes países são as suas capitais, não entendi porque é que acharam que Portugal havia de ser apenas Lisboa. Ou só cimento.